Ricardo Wagner

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Celebre a acabativa

Por Ricardo Wagner ·

ACABATIVA — A IA deu a todo mundo a chance de começar. O que muda uma empresa é o que alguém termina.

A IA deu a todo mundo a chance de começar. O que muda uma empresa é o que alguém termina.

Nunca foi tão fácil ter uma ideia com IA. Alguém já automatizou um relatório, alguém resume reuniões, tem piloto no jurídico e comitê no RH.

Isso é bom. Mas faça uma pergunta na próxima reunião de diretoria: qual dessas iniciativas terminou? Qual mudou um processo e mexeu num número do negócio?

Quase sempre vem o silêncio.

Falta o que eu chamo de acabativa. Iniciativa começa. Acabativa termina, entrega e sustenta.

Primeiro, o elogio

Não é para começar menos. A proatividade é o maior ativo da era da IA: a pessoa que olha para a própria rotina e pergunta o que não deveria mais fazer com as mãos. Essa curiosidade não vem na licença.

Ela rende em dois campos. Na produtividade: o rascunho em minutos, a análise que tomava a tarde. E na colaboração: a ata que já vira tarefa com dono, a informação que atravessa de uma área para outra.

O resultado grande mora no segundo. E é ali que a iniciativa individual não chega sozinha.

Onde a iniciativa morre

O assistente de IA é da pessoa. O fluxo de trabalho é do time.

Em outubro, numa sala de líderes da indústria, 100% tinham usado IA no trabalho naquela semana. Só 28% tinham levado um piloto até o fim, com resultado medido.

Numa empresa de grande porte, o inventário deu 65 iniciativas de IA e 32 responsáveis. Ninguém sabia quantas resolviam a mesma dor, nem quem decidia qual parar.

Todo mundo usa. Pouca coisa termina.

Meça impacto, não movimento

As empresas medem a IA pelo que ela movimenta: licenças ativas, pessoas treinadas, prompts por semana, pilotos abertos.

Movimento dá um ótimo slide. Impacto dá resultado.

Impacto é outra pergunta. O processo ficou mais rápido? Teve menos retrabalho? A decisão melhorou? O cliente percebeu? E a mais incômoda: as horas economizadas foram para onde? Hora que ninguém sabe onde foi parar não é ganho. É folga invisível.

Nada disso existe sem o número de antes. Sem o número de antes, não existe o número de depois.

O que é uma acabativa

Uma iniciativa vira acabativa quando:

  1. mudou o processo, não só a tarefa de alguém;
  2. virou rotina do time e não sai de férias com a pessoa;
  3. tem dono com nome e sobrenome;
  4. tem número de antes e de depois, de impacto, não de uso;
  5. ou foi encerrada de propósito.

Numa conversa com o CEO de uma seguradora, a diretoria apresentou nove prioridades de IA. Perguntei: "E quais vocês decidiram que não vão fazer?" Silêncio.

Prioridade no plural não é prioridade. Quem nunca encerra tem um portfólio, não uma estratégia.

Celebre o que terminou

As pessoas fazem mais do que é celebrado. E a maioria das empresas celebra a ideia: o hackathon, o protótipo, o piloto do evento de fim de ano. Ninguém volta seis meses depois para perguntar o que aconteceu.

Se a liderança só aplaude quem começa, vai ter cada vez mais começo.

Troque o aplauso. Na reunião de resultados, cada área mostra uma acabativa, não uma ideia nova. Reconheça quem terminou, ensinou o time e mediu. E quem teve a coragem de encerrar.

Três passos para transformar iniciativa em acabativa

1. Inventário em 30 minutos. Todas as iniciativas de IA da sua área numa folha só, inclusive as que ninguém aprovou.

2. Três perguntas para cada uma. Tem o número de antes? Tem dono? Se parar amanhã, quem sente falta?

3. Celebre uma e encerre uma. Dê o palco para quem levou uma até o fim. Depois escolha a mais fraca e encerre.

Quem termina?

Passei 25 anos dentro da tecnologia, entre HP e Microsoft. Por isso digo sem desconforto: o sucesso da IA nunca foi sobre tecnologia. Foi sobre pessoas, cultura e decisões que só um ser humano pode tomar, e sustentar.

A sua empresa não precisa de mais iniciativas. Precisa de quem termine, e de uma liderança que saiba aplaudir isso.

Qual foi a última acabativa que a sua empresa celebrou?